A Vida Boa

20:26


O que significa ter uma "vida boa", ou melhor, uma vida que vale a pena ser vivida?

"Por que você não sabe a resposta da pergunta mais importante da sua vida? Do que adianta ser o possuidor de tanto conhecimento, se você vive mal? Triste?"

A filosofia surge justamente para tentar responder essa pergunta. A cada instante da nossa existência a vida pode ser diferente do que ela é, e somos convidados a escolher os rumos que queremos tomar, e a cada escolha, criamos um trajeto que não têm volta: ao viver de uma forma, você deixa de viver de outras, é o simples custo de oportunidade.

 



A reflexão sobre a escolha que o homem faz sobre a forma certa de se viver coletivamente chama-se moral. Rousseau escreveu um artigo de qualidade inquestionável: Discurso da origem da desigualdade dos seres humanos, no qual discute a singularidade do homem em frente a natureza e diz que na natureza não existe tal coisa que é refletir sobre a vida: os animais tem instintos que o definem, assim, por exemplo, nada na vida do gato exigirá mais do que o instinto que ele já possui, e morrerá caso se encontre em uma situação aversa ao seu instinto. O homem por sua vez, possui natureza, instinto e essência da mesma forma que os animais, a diferença é que o instinto do homem não esgota as necessidades existenciais do homem, a sua vida transcende o seu instinto: existe um delta entre a natureza humana e a natureza, que é preenchido pela reflexão pela vida, pela moral, pela filosofia. O gato não se pergunta qual é a melhor forma de viver a sua vida. O homem se questiona a todo momento (ou pelo menos deveria refletir).

A filosofia não é a única área do saber que pensa sobre a vida, mas o que a caracteriza é que ela nunca dará uma solução garantidora de uma condição feliz, ao contrário de outras correntes de pensamento, como religiões ou livros de autoajuda.

O filósofo é humilde diante da vida. A filosofia não garante uma formula para a vida boa, e se houvesse um fórmula, todos saberíamos qual é pois temos horror a tristeza e teríamos erradicado a tristeza do mundo, e  nós sabemos, com todo a certeza, que existe tristeza no mundo: basta o semáforo fechar que xingamos deus e o mundo; basta derramarmos  água na mesa do computador que ficamos exasperados; basta que sejamos traídos, que somos possuídos pelo ódio.

Não é tão simples viver. Mas a filosofia oferece possíveis especulações sobre esse assunto de fundamental importância.

Uma dessas possíveis soluções é a de Platão. Em um dos diálogos de seu livro chamado República, o irmão de Platão chega para Sócrates e pergunta: Você que é tão sábio, me responda: dado que eu posso viver de infinitas maneiras, qual é a melhor forma de viver? Sócrates pensa, demora-se, e depois de muito pensar ele diz: aquilo que você deve fazer para viver bem, eu não sei.

O que Sócrates quis dizer, é que ninguém pode oferecer ao outro a chave para a vida boa, pois ela deve ser uma resposta pessoal. Porém, para que a vida tenha alguma chance de valer a pena, é preciso que ela seja livremente deliberada, é preciso que cada vivente seja o escultor de sua existência e possa deliberar, valorar e escolher, qual vida ele quer para si.

Se houvesse uma formula para a vida boa, ela jamais seria verdadeira, pois daí seríamos escravos da formula para viver bem, e o que ele diz é o oposto, não pode haver fórmula para a vida boa, pois para se ter uma vida boa é necessário a livre reflexão de cada vivente sobre a própria vida.

A liberdade é redentora. A liberdade de escolha não garante a vida boa, mas é a condição necessária, pois a vida não vale a pena ser vivida se ela for regida por escolhas tomadas pela coação, medo ou repressão.

Quando você é ajudado pelas instâncias repressivas oferecidas pela civilização para definir a vida que vai viver, obviamente essa vida não pode ser a vida boa.


 
Percebemos facilmente que a possibilidade de deliberarmos sobre a própria existência torna-se cada vez mais rara. Como temos tão poucas oportunidades para escolher, acabamos desaprendendo a valorar a nossa própria existência, afinal de contas o mundo sempre nos ajuda reprimindo-nos, guiando-nos e controlando-nos em todos os momentos, daí para o famoso: Acho melhor fazer assim, afinal, todo mundo faz dessa forma. Tornam-nos preguiçosos em tomar nossas próprias decisões, ficamos choraminguentos sobre os acontecimentos: sofremos por indecisão.


Esse texto é baseado na palestra "A vida que vale a pena ser vivida", do Filósofo Clóvis de Barros, e pode ser encontrada aqui.


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